Piano Essenfelder

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Do som mais delicado de Mozart aos acordes dramáticos de Beethoven, tocar em um Es­­senfelder, para muitos pianistas, é uma honra. A centenária fábrica, que funcionou em Curitiba por mais de 100 anos (1890-1996), deixou marcas e saudades em quem passou por ela. O som, a qualidade do produto e a ma­­neira artesanal de fabricação, dizem os pianistas, não ficava atrás de outros pianos estrangeiros, de fábricas que são referências mundiais no instrumento, como as alemãs Bechstein e Grotrian Steinweg.

A fábrica foi fundada em 1890, pelo alemão Florian Es­­senfelder, que havia sido técnico da Bechstein, considerado um dos melhores pianos do mundo, em Berlim. “Ele foi um grande técnico. Migrou para a América do Sul por causa do medo da guerra na Europa”, conta a pianista Henriqueta Monteiro Garcez Duarte, professora que testava os pianos depois de prontos. Segundo ela, antes de chegar em Curitiba, Essenfelder se estabeleceu em Buenos Aires. Mas as madeiras disponíveis no país para a fabricação de pianos não o agradaram e ele veio para o Sul do Brasil. “O piano depende de uma boa madeira para ser feito. A caixa de ressonância, que é a alma do instrumento, é feita de pinus. E ele chegou aqui e encontrou tudo o que precisava. Para a nossa sorte, que tivemos o privilégio de ter uma fábrica de piano por tantos anos”.

Em Curitiba, Essenfelder criou vários modelos do instrumento; verticais, de cauda e também orquestral, confeccionados com madeiras nobres como imbuia, mogno e cerejeira. A administração da fábrica, que ficava na Avenida João Gualberto e tinha galpões para as madeiras na Rua Campo Sales, passou de geração em geração. “Até por volta de 1940 ele estava no comando da fábrica, logo depois, os filhos assumiram”, diz a historiadora Andréa Maria Vizzotto Alcântara Lopes, roteirista do documentário Entre Concertos e Consertos: A arte da afinação de pianos. O curta-metragem, produzido com prêmio do edital para cinema da Fundação Cultural de Curitiba, conta brevemente a história da Essenfelder e mostra como é a profissão de um afinador de pianos. Na década de 1960, Esther Essenfelder (que morreu em 2009) assume a fábrica depois da morte do pai. O comando junto com os sócios durou até o seu fechamento, em 1996.

A crise, no entanto, já havia começado antes e a fábrica sofreu um baque no início dos anos 1990, com o governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992). As políticas econômicas que facilitaram a importação de produtos fizeram com que pianos mais baratos chegassem ao país. Com isso, a Essenfelder perdeu competitividade e não produzia mais no ritmo da década anterior, quando a fabricação era de 120 a 130 pianos por mês – sendo apenas um de cauda, segundo o ex-funcionário Donizete Bonifácio, que trabalhou no local por 14 anos. “Teve uma forte crise nesta época, a fábrica sofreu muito. Quando entrei [em 1984], éramos em 320. Depois, reduziram o quadro de funcionários pela metade”.

Centenário

Mesmo com a situação financeira desfavorável, a Essenfelder comemorou o centenário com um concerto de 100 pianos tocando ao mesmo tempo, em 1990. “Tinha uma faixa de pedestres entre a João Gualberto e a Campo Sales que era um teclado de piano. Todos os carros paravam para os pianos passarem. No aniversário, atravessamos um piano na rua e tocamos Parabéns pra você na calçada. Foi muito emocionante”, conta Bonifácio. A roteirista Andréa Lopes ressalta que a faixa de pedestres é uma espécie de emblema do que a fábrica significou para a cidade. “Sem dúvida, ela contribuiu para deixar marcas e profissionais que hoje tocam na Oficina de Música, por exemplo”.

Formação

Além do legado cultural para a cidade, a Essenfelder foi a responsável pela formação de profissionais do setor, como técnicos e afinadores – que até hoje atuam em Curitiba. Apesar de cada etapa de fabricação do piano ser feita por uma equipe específica, fazia-se questão de que, quem entrasse, conhecesse todo o processo. “Era preciso entender o piano por inteiro, e não era nada fácil aprender. Conquistava os mais velhos para que eles me dessem determinados macetes”, diz o ex-funcionário.

Profissionais de fora do país também eram trazidos para dar cursos aos empregados. “A dona Esther trouxe um austríaco muito competente, que dava cursos permanentes ao pessoal. Isso estava sempre presente na fábrica”, conta Henriqueta. Assim como ela, outras professoras da cidade eram convocadas para testar o piano antes da entrega. “Trabalhar com elas [as professoras] foi um laboratório. Eram críticas, e diziam exatamente o que estava bom ou ruim. Isso ajudou a quase zerar os erros”, diz Bonifácio. O maestro Oswaldo Colarusso, que regeu a Orquestra Sinfônica do Paraná entre 1985 e 1988, acredita que os melhores afinadores e técnicos estavam na fábrica. “Era uma referência quando se pensava em piano. Até hoje dependemos de pessoas que trabalhavam lá. Com o tempo, se não houver renovação, é uma profissão que irá sumir”.

Para Luciana Monteiro, produtora do documentário, o fim da Essenfelder foi uma perda cultural para Curitiba. “Não houve incentivo para que uma fábrica com mais de 100 anos sobrevivesse. É difícil encontrar um piano com a qualidade do Essenfelder, que era produzido minuciosamente”. A roteirista acredita que o fato de Curitiba ter fabricação de pianos ajudou a fomentar o estudo do instrumento na cidade. “Era um cenário diferente, já que um estudante de piano tinha a facilidade de ter uma fábrica ao seu lado, e conseguia ter um piano de qualidade rapidamente. Algumas lojas no centro da cidade até vendiam partituras para piano. Infelizmente, foi algo que com o tempo se perdeu”.

Divergências entre os sócios contribuíram para levar a fábrica à falência em 1996. “Fiquei até o último momento. Os funcionários gostavam tanto que pediram para continuar a fábrica, mas não houve acordo”, diz Donizete Bonifácio. No último ano, houve uma mudança de local, para a Cidade Industrial, mas a prefeitura questionava as instalações, o que levou a fábrica ao fechamento. A notícia de que a Es­­senfelder estava com dívidas angustiou a pianista Henriqueta Duarte. “A fábrica era um mundo. Quando ocorreu esta mudança, vi que não teria mais jeito. O fim dela foi um choque. Me causou uma grande mágoa, pois eu sabia que a cidade tinha uma fábrica de piano. Se a gente precisava de um técnico, buscava lá. E, de repente, a cidade ficou órfã”.

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