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Falar E Escrever (gramática Português Raridade Letras Escrit

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    Nomes dos livros:

    Falar e Escrever, volume I; autor Candido de Figueiredo; Livraria Clássica Editora; impresso em 1937 em Portugal; 5a. Edição; capa dura; amarelado pelo tempo; 335 páginas; mede 12,5 cm X 18,5 cm

    Falar e Escrever, volume II; autor Candido de Figueiredo; Livraria Clássica Editora; impresso em 1926 em Portugal; 3a. Edição; capa dura (um rasgadinho na lombada); amarelado pelo tempo; 309 páginas; mede 12,5 cm X 18,5 cm


    Na sala de espera

    (DA l.a EDIÇÃO)

    Em Abril de 1900, abri no Jornal-do-Comércio do Rio-de-Janeiro uma secção, destinada a ligeiros estudos práticos sobre a língua portuguesa; e, em Dezembro do mesmo ano, iniciei no Diário-de-Notícias de Lisboa outra seccão, análoga àquela nos intuitos, mas distinta na fôrma: a colaboração diária na folha lisbonense, folha essencialmente popular, tinha de se cifrar em sucintos apontamentos, que, dia a dia, me sugerisse a incorrecção, mais ou menos vulgar, no falar e no escrever; e a colaboração bissemanal no jornal mais importante da Rèpública brasileira, de um país onde os estudos filológicos são mais cultivados do que entre nós, naturalmente me aconselhava, em vez de simples apontamentos, artigos mais ou menos ponderados, e algum desenvolvimento dos assuntos.

    Dentro em pouco porém, vi que as duas aludidas seccões, mormente a do jornal lisboês, eram preenchidas, não pelos assuntos que mais oportunos se me figurassem, mas sim pelas minhas respostas a numerosíssimos consulentes, que de toda a parte me propunham as suas dúvidas, as suas objeccões, me formulavam preguntas, e que até me auxiliavam às vezes na solução de um ou outro problema.

    Da nossa capital, das províncias, das Ilhas Adjacentes, das nossas possessões ultramarinas, de vários Estados do Brasil, da Califórnia, (América do Norte), de toda a parte onde se fala o nosso belo e riquíssimo idioma, anuíram ao meu pobre consultório tão numerosos e atendíveis consulentes, que, sobretudo no Diário-de-Notícias, tive de renunciar aos meus planos de doutrinação espontânea, e restringir-me a responder, pois que para mais, nem para tanto, me ficava tempo nem ócios.

    Para mais, não digo talvez bem: uma vez ou outra, em caso mais grave, em que ao doente não bastaria a boa vontade e dedicação do médico assistente, outros terapeutas intervieram, para em conferência deliberar sobre diagnóstico e tratamento...

    Mas, em geral, as doenças eram relativamente triviais, resultantes da falta de ar gramatical, do abuso da cozinha francesa, de madrugar muito para as lides da imprensa, e da falta de apetite para leituras sadias. E, em tais casos, claro é, o médico receitava, dispensando conferência.

    Muitos e benévolos consulentes, especialmente os que não podiam coleccionar todas as minhas respostas, pediam que estas fossem reduzidas a volume. Algumas, pelo menos, não o mereciam, mas afigurou-se-me que o requerimento podia e devia ser deferido, logo que abrandasse a febre das consultas, e eu pudesse reunir toda a matéria do consultório, enjeitando o que menos aproveitável se me antolhasse.

    Mas as consultas não findaram, nem parece que findem, em quanto para elas eu lograr tempo, alguma saúde e a indispensável paciência. E não só não findaram, mas mantêm uma tal progressão que ameaçam submergir-me num mar de cartas e bilhetes postais.

    Como este facto chegou a parecer fábula a alguns estafermos da minha terra, arquivarei os documentos, ad perpetuam...

    Portanto, convindo publicar-se em volume a parte menos desaproveitável da matéria do consultório, nunca se faria a publicação, se eu aguardasse a última consulta.

    Começarei pois a publicar o que me parece publicável; e nisto significo eu que não posso dar foros de livros a tantíssimas preguntas, ingênuas aqui, disparatadas acolá, e malévolas ás vezes.

    Evidentemente, entre as que eu poupo e reproduzo, muitas haverá, que as pessoas letradas reputarão ociosas e inúteis. Advirta-se, no entanto, que eu não escrevo para gente letrada: escrevo para quem sabe menos do que eu, e satisfeito me sinto quando a um consulente de boa fé e de algumas letras eu posso transmitir noções, que ele poderia ter obtido do mais modesto professor do primeiro ensino.

    Embora eu tenha recebido no meu consultório homens letrados, que se disfarçam com um criptónimo, e que, muito depois, eu verifico casualmente, que se chamam João de Deus, Joaquim de Araújo, Silva Pinto, Conde de Bretiandos, Alberto Pimentel, etc., é certo que isso são honrarias imerecidas e alheias á minha ambição, pois que o meu consultório é especialmente destinado ao vulgo anônimo, que não deseja saber muito, mas que deseja saber alguma coisa. Por isso lhe chamo consultório popular, o que aliás não quere dizer que ele não esteja aberto para clero, nobreza e povo.

    Não sou especialista em tratamento algum; mas tenho praticado no hospital das letras, e conheço um pouco as moléstias sintácticas, morfológicas, fonéticas, afora "as moléstias exóticas, nomeadamente as dos francelhos.

    Sei que os padres-mestres me acusam de não usar a linguagem dos deuses, e de desacatar os mistérios de Eléusis, tornando inteligível para toda a gente o que os bonzos e manigrepos da alta sciência murmuram nos seus pagodes, sem que o povo os perceba. Para eles, San-Francisco Xavier seria um grande apóstolo, se pregasse em latim aos Japoneses. Não converteria um, mas faria lembrar Cícero.

    Ora, assim como o missionário tem de conhecer a língua dos infiéis que deseja converter, assim a doutrinação do povo, feita em dissertações eruditas ou na linguagem severa das taxinomias scientíficas, poderá servir de título honorífico a um aprendiz de sábio, mas são palavras ao vento.

    Falo, para que me oiçam e escrevo para que me leiam. Já agora, não arripío carreira, e os meus consulentes opinam comigo.

    Isso me basta.


    Ainda uma observação prévia.

    Os leitores, que conhecem livros meus, conhecem também a minha velha tendência para uma discreta simplificação da nossa anárquica ortografia, dentro das indicações etimológicas, das tradições da língua e dos preceitos inconcussos da sciência da linguagem.

    Há trinta anos, em meio do nosso pseudo-eruditismo, tal tendência era uma temeridade que todos suporiam destinada a naufragar contra os recifes da rotina, e contra os escarcéus de escribas inconscientes. Para não prejudicar a frutificação dos meus intuitos, comecei timidamente por eliminar da minha escrita os nocivos grupos ph, th, rh, o inútil y e poucas mais demasias da escritua usual. Quando me pareceu que os olhos do público, ? os mais implacáveis juizes em questões gráficas, ? se iam habituando a ver sem protesto supostas audácias, e quando vi que os principais representantes da sciência da linguagem no nosso pais vinham colocar-se ao meu lado, preconizando e praticando a simplificação que eu procurava, entrei desafogadamente na monda das consoantes duplas, poupando ainda algumas, em que me pareceu difícil meter a foice, sem escândalo do leitor vulgar: ella, aquelle, aquillo.. . Mas a coerência, que a todos obriga; o desassombro, com que, na imprensa periódica e em livros escolares, se vai praticando, com mais ou menos método, a simplificação ortográfica; e, por outro lado, o respeitável exemplo de profundos conhecedores da língua nacional, trouxeram-me a convicção de que já é tempo de pôr de lado a geminação de consoantes, quando ela não influa na ortoépia do vocábulo.

    E, se não entro por ora em outras fórmas de simplificação, autorizadas por mestres de primeira ordem, como ciência, cena, céptiao, próssimo, (por próximo), ficso (por fixo), etc., é porque, de um lado ainda tenho dúvidas sobre a vantagem da substituição do x por ss e cs; e, de outro lado, porque presumo que vale mais transigir um pouco com certos hábitos e ir surribando o terreno, sem deitar abaixo, de uma vez, todas as árvores velhas, do que precipitar reformas que, embora justificadíssimas, podem gorar e inutilizar-se, de encontro a costumeiras, mais ou menos respeitáveis. Antes esperar um pouco a conveniente preparação do espírito público, do que fazer-lhe surpresas, que não podem reverter em benefício de uma propaganda justa e necessária.

    Se eu pudesse fazer um livro para eruditos, levaria naturalmente a simplificação ortográfica até onde a levam os Srs. Gonçalves Viana, Carolina Michaëlis, Vasconcelos-Abreu, Dr. Gonçalves Guimarães, A. A. Cortesão, e tantos outros representantes da Filologia entre nós. Mas, escrevendo sobretudo para um público, a que não são familiares os processos da Filologia, tenho de lhe respeitar, até certo ponto, hábitos que não são erros, para que ele me leia de boa avença. A menor indisposição, entre quem escreve e quem o lê, é seguro indício de que o escritor perdeu o seu latim.

    Não obstante a minha transigência com certos hábitos, creio bem que um ou outro dos meus pios leitores desejaria, na minha escrita, mais algumas consoantes, ou notará, pelo menos, que alguma não está onde ele costuma vê-la. Em tal caso, deixo ao meu leitor a plena faculdade de juntar á minha escrita todas as consoantes que lhe aprouverem... Pedroiços, l?XII?05. C. DE F.


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