Para uns, Lado Selvagem, premiado em Berlim com o Teddy Bear (prêmio específico para filmes de temática gay), pode ser versão século XXI de Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois. Para outros, apenas uma desculpa furada para o diretor Sébastien Lifshitz filmar uma porção de cenas de sexo envolvendo um travesti e seus dois namorados. Mas a verdade é que esse é um filme ao qual não é possível ficar indiferente. Desde as primeiras imagens, quando a câmera passeia pelo corpo da atriz Stéphanie Michelini e revela algo peculiar sobre ela, percebe-se que algo pouco comum está por vir nos próximos 90 minutos.Stéphanie interpreta uma transexual, também chamada Stéphanie, que mora em Paris com seus dois namorados, Mikhail (Edouard Nikitine) e Jamel (Yasmine Belmadi). O primeiro é um russo que vive ilegalmente na França e tenta superar os seus traumas de guerra. O segundo é um jovem que ganha a vida se prostituindo, principalmente em banheiros públicos. A vida do trio sai da dinâmica regular que eles levavam quando Stéphanie é chamada para voltar para o norte da França e cuidar da mãe doente.O roteiro, então, se divide em quatro. Flahsbacks mostram o passado dos três personagens, enquanto eles tentam dar um rumo às suas vidas e aos relacionamentos naquela região rural francesa. Mikhail não fala francês, tem um inglês precário, mas mesmo assim consegue se comunicar com seus dois amantes. Jamel sente saudades de um tempo quando tinha uma vida menos obscura ao lado de sua família. Stéphanie vê a morte de sua mãe cada vez mais próxima e tenta reencontrar as suas raízes, buscando amigos de infância.Esse isolamento alavanca uma série de memórias do passado, que nem sempre são elucidativas na narrativa. O ritmo de Lado Selvagem é totalmente sinuoso por conta desses flashbacks que surgem do nada, e poucas vezes realmente acrescentam algo. Principalmente em relação a Stéphanie, cuja perda do pai e da irmã na infância podem ter resultado nas suas dificuldades emocionais na vida adulta. O título do filme vem da famosa canção de Lou Reed, "Walk on the Wild Side". Nela o cantor e compositor fala de homens que buscam o conforto - principalmente emocional - fazendo o que realmente gostam de fazer, que é se vestir e agir como mulheres. A música aborda a vida de transexuais, muito antes dessa palavra estar em pauta.