Dvd - Faz De Conta Que Não Estou Aqui - [ Gay ]

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    O adolescente Eric (Jérémie Renier) passa boa parte do seu tempo espiando seus vizinhos com um binóculo. Voyeur, ele é um jovem solitário e enigmático que prefere morar em um mundo próprio, não confiando nem mesmo em sua mãe e no padrasto desajeitado. Suas dúvidas e angústias comuns da adolescência são enfrentadas solitária e conturbadamente. As coisas começam a mudar quando um casal muda para o apartamento em frente ao seu, instigando o voyeurismo de Eric. Agora, sua obsessão passa a ser observar os novos vizinhos, seus hábitos e suas companhias. Quando se envolve com o casal, ele finalmente descobre a paixão, o sexo e a morte.



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    Áudio: Francês
    Legendas: Português, Francês e Inglês
    Tela: Widescreen Letterbox 16.9



    Fui assistir esse filme por achar a sinopse bem interessante, envolvendo o voyeurismo, assunto que já rendeu bons filmes. Além, claro, de ver o universo adolescente de uma ótica diferente, a francesa. Não me arrependi, é um filme muito bom, que acabou ultrapassando minhas expectativas. O diretor é um estreante, Olivier Jahan, que também é co-roteirista, e que já começou com pé direito. Seu filme é instigante, honesto, muito humano e realista, qualidades em falta no cinema atual.

    O protagonista aqui é Eric (Jérémie Rénier), um adolescente solitário (não tem nenhum amigo), anti-social (ele tem enormes problemas de comunicação) e voyeur. Ele passa o dia inteiro bisbilhotando os vizinhos com um binóculo, anotando tudo o que eles fazem e se intrometendo em suas vidas, enviando mensagens e cartas. O seu pai morreu e ele vive com sua mãe carinhosa e pacificadora Hélene (Aurore Clément) e o seu padrasto agressivo René (Johan Leysen) em um condomínio. A sua família se completa com sua irmã ausente Carole (Nathalie Richard) atualmente namorando um cara divorciado com um filho pequeno.

    Ele é tão apático na escola quanto é em casa. Mas mesmo assim atrai a atenção da bela e descolada Marie (Emma de Caunes). Também no colégio exercita sua parte voyeur. Eric é um jovem sem rumo. À primeira vista, uma pessoa vazia, mas olhando bem de perto, ele é cheio de conflitos e problemas. Esses problemas são maximizados quando ele recebe dois novos vizinhos no prédio em frente, Fabienne e Tom, por quem ele desenvolve uma grande obsessão.

    Confesso que grande parte do meu entusiasmo por esse filme se deve a uma identificação minha com o Eric. Eu fiquei perturbado diversos momentos ao notar as semelhanças entre nós e o fato de que eu também possa ser tão problemático quanto Eric. O personagem por si só é um dos mais interessantes que já apareceram nos cinemas tupiniquins esse ano. Eu posso compará-lo em profundidade e interesse a Erica Kohut (Isabelle Hupert) de A Professora de Piano, Alonzo Harris (Denzel Washington) em Dia de Treinamento, Marie (Charlotte Rampling) de Sob a Areia e Amélie Poulain (Audrey Tautou) de O fabuloso destino de Amélie Poulain. Todos personagens extraordinários, composições perfeitas de atores talentosos.

    Eric é completamente perdido. É antes de tudo um ser humano, com momentos felizes e outros tristes. Está longe de ser classificado como bom ou mau. Embora ele mostre uma crueldade latente que faz com que ele comece o rumor que leva a sua professora a ser despedida, a contar pra sua mãe que sua irmã está saindo com um cara que já é pai, ao mostrar uma foto comprometedora porém inocente de sua mãe para René e mandar mensagens humilhantes aos vizinhos que observa, ele também se mostra vulnerável e carente, como todos nós. As transformações pelas quais ele passa durante o filme são naturais e humanas, ele amadurece, descobre sua sexualidade, enfrenta o fato de se tornar adulto e ter que encarar responsabilidade para si e para os outros, tendo assim que deixar seu egoísmo de lado. Os roteiristas felizmente não fazem julgamento moralista dele, o filme é bem liberal e moderno e uma seqüência de sexo bem ousada perto do fim vai incomodar alguns, como na sessão onde eu estava. Uma velha na minha fileira não parou de resmungar. E o melhor, o personagem não é um tarado interessado em ficar de binóculo só pra ver as pessoas tomarem banho e se masturbar, como os mais afobados podem julgar sem saber direito. O personagem usa o voyeurismo para esconder sua vidinha medíocre, para não ter que encarar qaunto sua vida é vazia e superficial. Essa característica me faz lembrar imediatamente de A Professora de Piano.

    O ator Jérémie Rénier faz um trabalho brilhante de composição. Os seus traços duros e frios servem muito bem para personificar a barreira invisível que Eric constrói para evitar intimidade de qualquer tipo, mesmo que seja com sua mãe. A sua atuação silenciosa, mas com uso intenso de olhares, revela os conflitos internos que tornam o Eric tão inquieto. Ele passa de um momento de passividade para um ataque de fúria devastador (quando briga com René e o ataque a Karim, um garoto da mesma classe, na festa). Graças a ele Eric é um personagem tridimensional que continua em nossas cabeças horas depois das luzes se acenderem. Uma atuação estupenda, digna de Oscar.

    Aurore Clement por sua dedicada e preocupada Helene merecia um Oscar também. Ela ama o filho, mas ama René quase na mesma proporção e podemos notar seu desespero e infelicidade por ver os dois homens que mais ama não se darem bem. É bem difícil não se importar com ela, bonita, carismática e talentosa Aurore derrete o coração do espectador sempre que entra em cena. Suas cenas com Eric são das melhores do filme. A química entre ela e Jérémie funciona muito bem.

    Muitas pessoas ficaram realmente em dúvida por causa do final aberto (algo bem comum nas produções européias recentes, mais uma vez noto uma semelhança entre esse e A Professora de Piano), e confesso também fiquei em dúvida. No caminho de volta pra casa, comecei a raciocinar e tirei minha própria conclusão a respeito. Vemos nos últimos momentos que Eric conseguiu um pouco de paz. Tem uma relação melhor com sua mãe e com sua irmã e finalmente um relacionamento estável e as claras com Marie.

    Então vemos os dois na cama, prestes a fazer sexo, quando o clima é quebrado por Eric que chora abundantemente. Tomo esse ato como a catarse do personagem, o seu momento de redenção. Essa é a hora no qual ele baixa a sua guarda, na qual ele não tem mais medo de se expor, de se abrir e dividir seus sentimentos com alguém. Ele quebra o gelo de sua personalidade, pela primeira vez confia em alguém. Se ele quer realmente começar uma nova fase em sua vida, ele precisa ser mais sincero e honesto sobre seus sentimentos. E é o que ele faz, abandona seus medos e simplesmente chora. Chora pelos seus arrependimentos. Pelas oportunidades perdidas. E acho que também chora pelo seu pai. Durante o filme podemos perceber que essa é uma memória pesada e traumática para ele, e que há uma certa idealização do pai por parte dele. Carole diz ter sido hostilizada uma vez só por insinuar que o pai deles não era perfeito. O jovem Eric então chora tudo o que ele reprimiu em seu ser todos esses anos. E não é pouca coisa! Um final muito bom para um filme idem.

    A fotografia é curiosa. É bem sombria e por vezes distante dos fatos ocorridos na tela. O maior exemplo disso é que vemos do mesmo ângulo e distância as coisas que acontecem com seus vizinhos. Por isso algumas vezes nos pegamos querendo ver mais de perto, nos envolvermos mais com a ação e torcemos para vermos alguma coisa mais picante. Resultado acabando nos tornando voyeurs também. Isso não é surpresa, se contarmos com o sucesso que muitos realities shows fazem atualmente rompendo a privacidade dos outros. Mas o que podemos fazer? Ficar xeretando a vida dos outros, pode criticar quem quiser, é divertido mesmo!

    Esse aqui é muito recomendado se você quiser ver um filme inteligente, tocante e realista sobre a adolescência. E também dá uma vontade de comprar um binóculo e fazer o mesmo que Eric fazia com seus vizinhos. Mas aí já é demais. Muito recomendado.   Comentário de: Buda



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