Lucíola (josé De Alencar Vestibular)
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Apresentação
Neusa Pinsard Caccese (da Universidade de São Paulo)
Na transposição minuciosa e cuidada do ambiente do Rio de Janeiro, no Segundo Império, José de Alencar soube reconhecer os padrões de conduta e valores de uma sociedade em transformação, movida sobretudo pelo dinheiro e preocupada com o status social por ele conferido. Em Senhora e Lucíola, os conflitos das personagens e entre personagens são determinados pelo confronto do indivíduo com essa sociedade.
Em Senhora, o indivíduo que age de acordo com as convenções do meio, fazendo do casamento um instrumento de ascensão social, é punido pela mulher que ama e por quem é amado, por ter sobreposto aos direitos do coração os interesses materiais. Através de Aurélia, Alencar critica o comportamento de Seixas e a sociedade que o determinou. Mas, possibilitando a redenção do herói, acaba por premiá-lo com a mulher amada e o dinheiro almejado, pactuando com os valores que pretende desmistificar. E, se pacto existe, é do narrador em terceira pessoa que critica,
pela voz da protagonista, mas que, ao mesmo tempo, recompensa, como senhor absoluto do destino de seus heróis.
Anos antes, Lucíola havia proposto problemas semelhantes, sob outra perspectiva e com conseqüências diversas. É que, aqui, a crítica, implícita, decorre de um conjunto de fatores, se faz indireta e sem porta-voz, já que aqueles valores não são apenas da comunidade, mas estão introjetados nos protagonistas. E se há possibilidade de reabilitação e prêmio para Seixas (deixemos agora de lado as considerações sobre a sociedade patriarcalista, permissiva, que tudo aceita e perdoa do homem), para Lúcia a redenção é acompanhada de castigo e autopunição, pois ela própria, como Paulo, endossa os preconceitos do grupo social a que pertence.
Em Senhora, a crítica explícita e a concessão final decorrem do desdobramento existente: de um lado, a protagonista; de outro, o narrador. Lucíola é narrado em primeira pessoa; foco narrativo limitado, portanto, a uma perspectiva pessoal, particular: a do indivíduo que participa dos acontecimentos e tem deles a visão que a sociedade lhe impõe, como impõe seus prejuízos à própria protagonista, vítima inocente das distorções dessa mesma sociedade.
Já na primeira página se confessa o preconceito moralista, na recusa de Paulo em contar pessoalmente sua história, para não profanar o ambiente em que se encontra uma jovem da mesma idade de Lúcia, que vivera os acontecimentos lembrados.
Se Paulo-protagonista não tinha condições de ver criticamente os padrões convencionais, de comportamento, Paulo-narrador poderia fazê-lo no momento em que recompõe o passado. Mas há, de sua parte, uma recusa intencional, de vez que pretende relembrar seu encontro com Lúcia como se o estivesse vivendo, "ignorando o futuro, e entregue todo às emoções que sentia outrora". (cap. XXI)
Daí a impossibilidade de criticar e autocriticar-se pois a presonificação dos fatos e da emoção sentida pelo protagonista contaminam o narrador, impedindo-lhe o distanciamento necessário à reflexão. Esta segunda redução, consciente, do foco narrativo complementa a limitação natural, decorrente da primeira pessoa que, de qualquer forma, permitiria ao menos ver o passado com os olhos do presente. É esse compromisso que o personagem-narrador não quer assumir, fazendo recair em Paulo a responsabilidade da análise dos acontecimentos e das pessoas ? responsabilidade esta grandemente atenuada pelo envolvimento emocional e perplexidade diante da conduta da protagonista.
O Paulo-narrador, ciente, portanto, de todos os acontecimentos e das razões de Lúcia, dá lugar ao Paulo-personagem, perplexo diante dessa mulher, incapaz de compreender, como o leitor, os motivos de sua excentricidade e atitudes contraditórias.
É, pois, através da ação que se irá compondo as personalidades de Lúcia e do próprio Paulo, independente e não paralelamente à caracterização feita pelo narrador, como ocorre nos outros romances de Alencar. Eis por que, em Lucíola, a revelação do passado se dá no final do romance (cap. XIX): tanto quanto em Senhora, o presente está ancorado nesse passado oculto, mas a atitude de alheamento do narrador permite-lhe expor os fatos brutos, deixando ao leitor sua interpretação, que só se completará com a revelação feita nos últimos capítulos. Cabe, portanto, ao leitor (como à confidente que o representa) questionar a realidade proposta pelo romance, da qual o próprio narrador faz parte.
O que ressalta como dado humanamente significativo e elemento estruturador do romance é a dissociação categórica e definitiva, sem qualquer nuança, entre o amor físico e espiritual. (Não cabe, aqui, analisar os fundamentos dessa dicotomia que se apoia, basicamente, na concepção romântica de Amor e responde aos interesses de uma sociedade patriarcal.) Em Lucíola, o conhecimento da mulher, no sentido bíblico, abrindo as portas do prazer, torna-se um obstáculo à compreensão mútua e comunhão espiritual.
Daí por que no início de seu relacionamento com Lúcia, em que predomina a atração sexual, Paulo não a entende e transmite ao leitor suas incertezas e desconfianças. É verdade que, provinciano recém-chegado à Corte, alheio às suas maledicências, será o único capaz de entrever a inocência e virgindade da alma da protagonista. Percepção intuitiva no primeiro encontro, reiterada tantas vezes no decorrer da ação, abalada outras tantas pela desconfiança inoculada nele pela sociedade, através de seus representantes ? Sá, Cunha, Couto. Acostumado a confiar, Paulo aprenderá a desconfiar ? levado pelo orgulho e medo do ridículo ? para, em seguida, reconhecer seu erro e pedir perdão.
Mas Paulo é exceção. Os outros amantes de Lúcia ? que perderam a espontaneidade no trato social ? não têm acesso ao seu coração ou à sua alma e, através de seu corpo, só podem conhecer a cortesã.
Por outro lado, Lúcia, que se apaixonara por Paulo no mesmo dia de sua chegada ao Rio, passará por um processo de transformação, ou renascimento, que fará desabrochar a adolescente pura e ingênua que fora um dia, ao mesmo tempo que irá eliminando a cortesã impudica. É um processo de redenção, que se fará pela negação do próprio corpo: desde que conhece Paulo, Lúcia se recusa aos outros homens e, gradativamente, irá, também, se recusando a ele, até a abstenção total e a proibição de um simples beijo. Para ela, só assim o espírito pode-se fortalecer; e é possível renascer, da Lúcia mortificada, a Maria da Glória íntegra e angelical. A protagonista alcança, portanto, a purificação através do amor espiritual, que não pode ser contaminado e profanado pela mais leve sombra de desejo físico. E só dessa forma consegue "atar as duas pontas da vida", dando continuidade ao passado feliz, brutalmente violentado. Continuidade temporal e espacial, pois a casinha simples que escolhe lembra o espaço feliz de sua infância em São Domingos.
Assim, o desenvolvimento da linha narrativa e o comportamento das personagens resultam dessa concepção de amor, responsável também pelo próprio desenlace do romance. Lúcia/Maria da Glória consegue a purificação interior e é feliz por isso, mas seu erro não pode ser esquecido e a sociedade não perdoa: não basta a marginalização que se impõe, ao refugiar-se com a irmã num recanto afastado (sua proximidade é uma afronta para a comunidade). Impõe-se a destruição total daquele corpo que ela já havia conseguido entorpecer, numa antecipação do castigo merecido, e com um sentido evidente de autopunição: Lúcia morre por causa do filho de Paulo, fruto do amor carnal, proibido e condenado pela sociedade e por ela mesma. E é através da morte que seu objetivo maior será atingido: a destruição do corpo implica na sobrevivência e supremacia do espírito. A redenção alcançada
| Lucíola (josé De Alencar Vestibular)
Preço:
R$ 400 unid. (Produto Usado)
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