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A Luneta Mágica

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    Nome do livro: A Luneta Mágica; autor: Joaquim Manuel de Macedo; Editora Ática; impresso em 1977; 166 páginas; desgastado pelo manuseio; amarelado pelo tempo; mede 11 cm X 21 cm; espessura 1 cm; 4a edição.

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    Os superpoderes de Simplício

    Marisa Philbert Lajolo

    Joaquim Manuel de Macedo, autor de A Luneta Mágica é também autor de A Moreninha e O Moço Loiro. São estas duas últimas obras que o tornaram conhecido do grande público, pois nelas o romancista se utilizou de toda sorte de intrigas sentimentais que o público tinha capacidade de consumir. Mas, se a capacidade de os leitores consumirem romances românticos parece longe de se esgotar (e as recentes adaptações de A Moreninha para teatro, cinema e televisão só confirmam isto. . .), o mesmo não se deu com nosso romancista, que decidiu mudar de rumos.

    Em 1869 (vinte e cinco anos depois de A Moreninha, sua obra de estréia), escreve e publica A Luneta Mágica, obra que se afasta bastante do romance sentimental romântico. Mas, se A Luneta Mágica se afasta do romance ligeiro de complicações amorosas e desenlaces piegas, não se aproxima de nada. Paira indecisa entre a fábula, o conto de fadas, e a historieta, tudo entremeado de digressões pseudofilosóficas. As freqüentes e nem sempre oportunas especulações sobre o Bem e o Mal se conduzem através de um discurso em que predomina o lugar-comum romântico, enunciado por um narrador que proclama sua miopia física e moral desde a primeira página.

    Simplício é o narrador-protagonista. Em primeira pessoa, conta-nos suas desventuras de míope que "a duas polegadas dos olhos não distingue um girassol de uma violeta" (p. 7). Mas, suas desventuras sobrevivem à sua miopia. De um misterioso armênio, dotado de poderes sobrenaturais, consegue uma luneta através da qual lhe é possível ver com clareza. Mas, como ocorre com todos os objetos mágicos, o uso do monóculo encantado tem suas restrições: se fixado mais de três minutos em qualquer objeto, animal ou pessoa, dará a Simplício a visão do Mal. Escusado dizer que Simplício ultrapassa os três minutos de visão, e passa, assim, a viver num mundo de traições, desonestidades, hipocrisias.

    Levado ao desespero pela contemplação do Mal, Simplício acaba por espatifar o talismã que no devido tempo, é substituído por outro com poderes inversos: fixado mais de três minutos em qualquer pessoa, animal ou objeto, proporcionará a Simplício uma visão do Bem. Simplício vive, então, em dois universos antônimos: onde a primeira luneta revelava sovinice, a segunda revela prudência; onde se manifestava a hipocrisia religiosa, manifesta-se agora a severidade evangélica, e assim por diante. Isto, é claro, novamente conduz Simplício ao desespero e quase ao suicídio; momento exato em que ressurge o armênio, e o livro se encaminha para o epílogo.

    Para qualquer leitor, mesmo o mais desprevenido, tornam-se cristalinas as intenções didáticas do romance A Luneta Mágica. Sem a sutileza de entrelinhas, o livro dá alfinetadas no poder público, em certos hábitos arraigados na sociedade brasileira do século passado, em alguns valores rotulados pela burguesia romântica. Mas, o problema está em que estas críticas travessas prescindiam da luneta mágica, visto que o narrador as pratica desde a introdução, quando a ironia de certos comentários nos fazia esperar, senão maior e mais profunda malícia, pelo menos menor dose de ingenuidade na drástica oposição entre o Bem e o Mal. Não se chamasse ele Simplício, e o autor não fosse tão etimológico na construção de sua personagem. . .

    Em resumo, não há evolução alguma na perspectiva em que a estória é narrada. Simplício continua simplício, antes, durante e depois da posse das duas lunetas. Jamais adquire autonomia para distinguir o Bem., do Mal, o certo do errado. Esta faculdade fica-lhe embotada, e só com uma terceira luneta, também mágica, a personagem-narrador consegue sobreviver. Visão, sem dúvida alguma, pobre do homem condenado à eterna miopia, ao arrimo em monóculos sobrenaturais e extremistas.

    Mas, poderíamos, ao contrário, pensar nessa impotência humana como índice de grandeza, talvez uma das grandes lições de Machado, que doze anos depois publica Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas, toda a contradição do real machadiano nem por um segundo empana a visão linear, maniqueísta e superficial de Simplício/ Macedo, para quem o Bem e o Mal são alternativas que se excluem, que se sucedem sem dialética.

    Assim, oscilando entre a reflexão filosófica (insuficiente) e a crítica de costumes (superficial), sucedem-se as quase duzentos páginas deste romance. Simplício, super-herói ingênuo de Seu status, quase que desperdiça seus superpoderes. Em sua esteira vêm Simão Bacamarte e Brás Cubas e, muito longe, longíssimo, Riobaldo. Simplício vale como lição: contra-exemplo, pelo qual superar a miopia literária.


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