Lp Deus E O Diabo Na Terra Do Sol - 1963 Capa Dupla 1ª Ed.

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    DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL
    SERGIO RICARDO - GLAUBER ROCHA

    FORMA - FM-3 - 3A - 1963

    CAPA COM MARCAS NAS LATERAIS, ABERTURA NA BASE, ALGUN SINSIS DOS ANOS E DEDICATÓRIA (DATADA DE 1965) NA PARTE INTERNA). VG
    VINIL EM ÓTIMO ESTADO. LEVES MARCAS SUPERFICIAIS. VG++

    ATENÇÃO COLECIONADORES:
    TRATA-SE DA PRIMEIRA EDIÇÃO, RARÍSSIMA, EM CAPA DUPLA, LANÇADA EM BAIXA TIRAGEM JUNTAMENTE COM O FILME. DEPOIS DO FILME TER GANHO PRÊMIOS INTERNACIONAIS, O DISCO FOI RELANÇADO, COM CAPA EM PRETO E BRANCO E SIMPLES, EM MAIOR TIRAGEM.
    OPORTUNIDADE ÍMPAR DE LEVAR PRA SUA COLEÇÃO A PRIMEIRA EDIÇÃO.

    Faixas:
    01. Abertura
    02. Manuel e Rosa
    03. Sebastião
    04. Discurso de Sebastião
    05. A Mãe
    06. Antonio das Mortes
    07. Corisco
    08. Lampião
    09. São Jorge
    10. Monólogo
    11. A Procura
    12. Reza de Corisco
    13. Perseguição/Sertão Vai Virar Mar

    No encarte do disco, lemos:

    DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL

    cancioneiro do nordeste
    composto e interpretado por
    SERGIO RICARDO

    Letras de
    GLAUBER ROCHA


    O cego Zé, guiado apenas por seu primo Pedro das Ovelhas, me disse que ele cantava para não perder o juízo; pegava o cavaquinho e, voz de angústia, furando as tardes de Monte Santo, invocava amores perdidos e crimes terríveis.

    Quem anda pelo sertão conhece bem um cantador -- velho e cego (que cego vê a verdade no escuro e assim canta o sofrimento das coisas) bota os dedos no violão e dispara nas feiras, levando de feira em feira e do passado para o futuro, a legenda sertaneja: história e tribunal de Lampião, vida, moralidade e crítica. Na voz de um cantador está o "não" e o "sim" -- e foi através dos cantadores que achei as veredas de Deus e o Diabo nas terras de Cocorobó e Canudos.

    Sou mau cantador -- sem ritmo e sem memória, fiquei por tempos a ruminar e reinventar a essência das coisas que tinha ouvido -- e um enorme romance em versos nasceu, impuro e rude, narrando o filme. Acabando o trabalho, pronta a montagem, restavam imagens neutras, mortas, que necessitavam da música para viver: eram imagens do romanceiro transcrito. Todo o episódio de "Corisco", por exemplo, nasceu das cantigas que ouvi cantar em vários lugares diferentes e, dispensada a música, perderia um significado maior.

    Sérgio Ricardo, embora seja sambista com mistura de morro e asfalto, tem paixão pelo nordeste, tem a vantagem de ser cineasta e sabe que música de filme é coisa diferente: tem de ser parte da imagem, ter o ritmo da imagem, servir (servindo-se) à imagem.

    Começamos o trabalho. Dei as letras -- nas quais usei muitos versos autênticos do povo -- e Sérgio começou a compor. Tinha seus vícios de "arranjos"; discutimos que o negócio tinha de ser "puro". Sérgio ouviu péssimas gravações do cego Zé e do seu primo Pedro: pegou e matutou o tom. Cortamos certos versos, fizemos outros: Sérgio deu uns palpites nas letras e eu, mau cantador, dei palpites na música. E ensaiamos pra valer na hora da gravação. Transformei Sérgio em ator -- gritei, ele ficou nervoso, deixou os preconceitos e soltou a voz e os dedos do violão. Depois de vários dias a noites a banda sonora estava gravada.

    Acho que o cinema brasileiro tem, nas origens de sua linguagem, um grande compromisso com a música -- o nosso triste povo canta alegre, uma terrível alegria de tristeza. O samba de morro e a bossa nova, o romanceiro do nordeste e o samba de roda da Bahia, cantiga de pescador e Villa-Lobos -- tudo vive desta tristeza larga, deste balanço e avanço que vem do coração antes da razão.

    Uma das mais belas imagens do nosso cinema é, por isso, aquela de Grande Othelo, em "Rio Zona Norte", cantando um samba de Zé-Keti. É assim que nossa música no cinema funcionará sempre como a explicação profunda da alma brasileira.

    Glauber Rocha


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