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PITÁGORAS L. GONÇALVES
Pitágoras e a expressão Se toda arte é por definição expressiva, trabalhos em que há uma forte carga de sentimentos, que são realizados a partir de gestos livres e visivelmente subjetivos, em que corpos são deformados para que as emoções do artista e de seu tempo sejam plasmadas em formas, linhas cores e texturas, talvez esses trabalhos possam ser considerados expressionistas. No século XX, como sabemos, a arte passou por transformações radicais e certamente alguns dos artistas que ficaram conhecidos como expressionistas tiveram papel fundamental. Mesmo que stricto sensu nunca tenha existido um movimento ou escola que se auto-intitulasse com tal, ao longo de toda a história da arte milhares de artistas poderiam ser aproximados de tal tendência. Por isso não seria exagero dizer que Pitágoras Gonçalves é por excelência um artista expressionista.
Seus desenhos e pinturas são frutos da entrega total de seu corpo e espírito e, mais do que isso, são resultado de um trabalho compulsivo. Há nele uma espécie de imposição interna e irresistível que o leva a trabalhar incessantemente. Sem jamais obedecer a alguma ordem instituída e que esteja acima do indivíduo, que não seja uma necessidade interior e imediata, Pitágoras foi aos poucos criando um repertório particular que além de ser significativo para ele tem encontrado respostas positivas no seu entorno. Mais do que a tradução de gestos rápidos e fluídos, seus desenhos e pinturas dialogam com o mundo contemporâneo.
A série realizada a partir de editoriais de moda publicados em revistas, em que o artista interfere não apenas nas fotos dos corpos quase anoréxicos das modelos que parecem perder sua carnalidade e se reduzirem a imagens artificiais, mas também nos seus trajes, são um exemplo do modo como a pintura e os grafismos de Pitágoras se opõem diretamente aos padrões de beleza e tendências da moda estabelecidos. Sua pintura parece ora tentar restabelecer certa noção de indivíduo, de alguém que se afirma pela independência e que condena as formas organizadas de poder, ora pela acentuação da animalidade e dos instintos mais primitivos presentes em nós. Daí certo aspecto catastrófico, mas isso talvez se deva ao tom imaginativo e fantasioso de seu trabalho, que em alguns momentos se aproxima de elementos sobrenaturais e da ficção científica, sem perder a graça e o bom humor.
Partindo da banalidade e da vulgaridade da vida cotidiana, Pitágoras, na contramão da arte que valoriza a racionalidade e a tecnologia, é desses artistas que prefere o silêncio e que se recusa a esboçar qualquer explicação sobre sua produção, afinal o discurso tende a reduzir sua força expressiva. Assim, não sem angústia, nos resta contemplar essas pinturas e desenhos que nos convidam a reviver a experiência de assombramento que jamais deixará de reverberar pelos tempos.
Cauê Alves Crítico de arte, pesquisador e professor da Escola da Cidade
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